PASTORAIS

"Não sou um ateu total, todos os dias tento encontrar um sinal de Deus, mas infelizmente não o encontro."
(José Saramago)
Em cada criança se vê um sinal de Deus. Em cada ser humano Deus se revela, como Criador. Não há maior cego do que aquele que não quer ver. Saramago revela assim que se deixou contaminar pela epidemia de cegueira que ficcionou na sua célebre obra “Ensaio sobre a cegueira” (1995).
Um homem inteligente deveria compreender que a Fé e a Razão não se confundem, funcionam em planos diferentes, evidenciam natureza distinta. Logo, Deus só se pode alcançar através da fé (“Ora, sem fé é impossível agradar-lhe; porque é necessário que aquele que se aproxima de Deus creia que ele existe, e que é galardoador dos que o buscam.”- Hebreus 11:6) e não do raciocínio lógico.
Saramago dá a entender que, lá bem no fundo, quer acreditar num Deus benigno, pessoal e relacional, acima das estruturas religiosas arcaicas e corruptas, mas que nunca conseguiu lá chegar. Remete assim a responsabilidade do “desencontro” para Deus, continuando a pedir “um sinal” tal como os religiosos judeus o exigiam a Jesus (“Uma geração má e adúltera pede um sinal, e nenhum sinal lhe será dado, senão o sinal do profeta Jonas. E, deixando-os, retirou-se.” – Mateus 16:4).
Mas a verdade é que a “cegueira” espiritual de José Saramago não é muito diferente da de alguns cristãos, que insistem em não ver um sinal de Deus em cada ser humano, criado à sua imagem e semelhança. Ainda que em rebelião ou incredulidade. E por isso também no próprio homem Saramago.
Houve até quem, entre os cristãos, se regozijasse na morte do escritor. E também há muitos que desprezam por completo a figura, à conta das suas posições políticas e anti-religiosas, como se não tivesse deixado um legado literário relevante na nossa língua, mundialmente reconhecido e valorizado.
E quando esta cegueira se revela cumpre-se mais uma vez a Escritura, que nos avisa daqueles cegos que insistem em guiar outros cegos (“Pode porventura o cego guiar o cego? Não cairão ambos na cova?” – Lucas 6:39).
Parábola dramática, bem antiga, mas sempre actual, como toda a Palavra saída da boca de Deus.








